Loading...

Processo de criação

PROJETOS > SAUDADE > PROCESSO DE CRIAÇÃO

O espetáculo Saudade surgiu a fim de dar prosseguimento às pesquisas do Grupo Teatro Público voltadas para a inserção da ficção no cotidiano das cidades e para a inserção do público na cena teatral. A partir de princípios relacionados à performance e a arte urbana, em diálogo com a linguagem teatral, o grupo propôs ainda novas experimentações de ocupação, encenação e a inserção de uma história ficcional relacionada ao tema da morte, seus ritos e afetos, em um bairro que cresceu em torno da segunda necrópole construída em Belo Horizonte, o cemitério da Saudade.

No primeiro espetáculo do Grupo, Naquele Bairro Encantado, optou-se por não criar uma trama ou roteiro pré-estabelecido como ponto de partida, com o objetivo de dar lugar às histórias do bairro e dos moradores. Dessa vez, no bairro Saudade, a proposta para a nova criação foi trabalhar com um roteiro inicial. Financiado pelo Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte, o processo de habitação teatral se iniciou no mês de março de 2014, no bairro Saudade, inspirado pela obra “A morte e a morte de Quincas Berro D’água”, do escritor baiano, Jorge Amado.

Para contar a história de Zenóbio de Andrade Reis Boaventura, o grupo optou por trabalhar com dois núcleos de personagens na montagem de Saudade. Interpretados pelos atores Diego Poça, Luciana Araújo, Marcelo Alessio, Rafael Bottaro e Rafaela Kênia, os grupos de personagens foram identificados como a família do falecido e seus amigos de boemia. Além dos atores, que compartilharam entre si a direção do espetáculo, o processo de montagem contou também com a participação de Larissa Alberti (dramaturgia e intervenções urbanas com a palavra), Eberth Guimarães (direção musical), Ana Luisa Santos (figurino) e Fernando Linares (confecção de máscaras e orientação do trabalho de atuação).

A história começou com o desaparecimento do corpo do falecido Zénóbio de Andrade Reis Boaventura, nos arredores do cemitério da Saudade. Cartazes e panfletos de “desaparecido” foram espalhados pelo bairro com o intuito de causar um rebuliço com a suposta notícia. Neste primeiro momento, as reações dos moradores foram marcadas por uma mistura de estranhamento, surpresa e dúvida. Nos cartazes espalhados havia um endereço de e-mail e um número de telefone, o que permitiu que o algumas pessoas entrassem em contato com a fictícia família do morto, na tentativa de se certificarem da veracidade das informações.

Para ler os quadrinhos, clique aqui

Num segundo momento, os personagens mascarados começaram a habitar o bairro. Inicialmente surgiu um grupo de mulheres, a família do morto, que vagavam em torno do Cemitério da Saudade à procura do corpo. As mulheres máscaradas com véus de renda personificavam o luto e diziam pagar uma promessa de peregrinar até que encontrassem o corpo desaparecido. Durante as primeiras caminhadas, alguns moradores filmaram a aparição das mulheres, com isso a história, que para muitos ainda não significava teatro, começou a aparecer nas redes sociais. Ao longo de um mês de caminhada com a família do morto no bairro, essas mulheres começaram a criar relações com o público e novas histórias sobre Zenóbio foram surgindo, fruto da fabulação dos próprios moradores.

Com a história do desaparecimento do corpo já intaurada no bairro, o segundo núcleo de personagens, formado pelos amigos do Zenóbio, apareceu conduzindo seu corpo para uma última depedida. Um ator com a máscara do morto, representou Zenóbio, que era levado pelos amigos para um último festejo. Juntos, os atores máscarados de bêbados, tocavam, cantavam e dançavam pelas ruas e bares do bairro para “beber o morto” encerrando um rito de vida e morte. Assim, os dois núcleos de personagens, representados pelos mesmos atores e por isso em momentos distintos, já habitavam o bairro, de forma que as mulheres e os bêbados jamais se encontrassem. Com isso, quem fazia a ponte entre os personagens, mais uma vez, era o público que levava as histórias e notícias de um núcleo para o outro a cada encontro.

Ao final de 6 meses de habitação teatral e criação conjunta com os moradores, o Grupo Teatro Público apresentou ao público o espetáculo que se configura atualmente em um dia de apresentação, com duração total de 3 horas dividas em dois atos. Na divulgação feita com os santinhos do Zenóbio, os moradores do bairro e o público externo são convidados a pagar uma promessa junto com a família do morto. O primeiro ato se inicia na porta do cemitério e é composto pelas personagens femininas. Após a peregrinação, que se bifurca para o interior do cemitério, as mulheres conduzem o público para assistirem a um video documentário de entreato, que traz um pouco da visão dos moradores sobre a história. Nesse momento os atores trocam de roupa e voltam com o segundo núcleo de personagens. O segundo ato se inicia dessa vez com os personagens masculinos, Zenóbio e seus amigos, que com o pretexto de comemorarem o aniversário do Nônô, convidam o público para se despedirem do amigo ao som de violão, cavaco e percussão.

— A Atuação e a Utilização de Máscaras

Em relação ao trabalho de atuação, os atores seguiram sua pesquisa com a linguagem das máscaras teatrais. A pesquisa para criação, confecção e utilização das mascaras dos bêbados – Amigos do Zenóbio – foi uma releitura das máscaras tradicionais do teatro balinês. Inspirados nesses palhaços balineses, figuras de caráter grotesco, com grandes dentes e expressões marcantes, os atores confeccionaram os primeiros moldes das máscaras de cada personagem em papel. Da mesma maneira se deu a confecção da máscara do morto, o personagem Zenóbio, que nesse caso sua pesquisa teve como base para a confecção imagens de mascaras mortuárias. Ao final dessa primeira etapa de pesquisa e descoberta de cada personagem as máscaras definitivas foram confeccionadas em couro pelo mascareiro Fernando Linares e o ator do grupo Teatro Público, Rafael Bottaro. Estão presentes também propostas de atuação mais performáticas, com mascaramentos inspirados nas matrafonas, figuras presentes na cultura popular de algumas regiões de Portugal, nas ações das mulheres – Família do morto – que buscam trabalhar a composição de imagens envolvendo atores, espaços e suas respectivas cargas semânticas. Essas máscaras foram feitas com tecidos de rendas sobre o rosto, num mascaramento que esconde ao mesmo tempo em que revela partes do rosto, remetendo às ideias de feminino e ao luto. Outros elementos também presentes no trabalho dos atores são a presença marcante da música em cena, e a relação entre improvisação e dramaturgia.

— Dramaturgia Aberta

Para além da história do desaparecido, o processo de criação no bairro e, consequentemente, o espetáculo resultante se propõe a revelar e incorporar as reações, relações e acontecimentos que surgem do encontro dos moradores com esta história ficcional, caracterizando uma dramaturgia aberta, que explora o risco e busca potencializar o acaso e as respostas do real para o ficcional.

Para contar essa história, o grupo, juntamente com a dramaturga Larissa Alberti, utilizou princípios dramatúrgicos em diálogo com técnicas da intervenção urbana que estão relacionados ao potencial da palavra de poetizar o cotidiano, ações estas relacionadas à pesquisa de mestrado na área da literatura Poesia e arte urbana: paisagens poéticas no horizonte das cidades, desenvolvida pela dramaturga no CEFET-MG.

Durante o processo de criação do espetáculo, outra estratégia adotada pela dramaturga em conjunto com os atores e a NAUM produtora, foi a criação do blog “O Diário da Saudade” (https://odiariodasaudade.wordpress.com), da pesquisadora fake Aurea Andrade. A utilização desta ferramenta teve o obejtivo de apresentar notícias reais e fictícias a respeito do cotidiano e das memórias do bairro saudade, além de registrar e divulgar os novos acontecimentos, vídeos dos moradores e fotografias do bairro, após a chegada dos máscarados.

— Sobre o Bairro Saudade

O bairro Saudade foi construído para abrigar a segunda necrópole mais antiga da história da cidade, o Cemitério da Saudade. Bairro tradicional da capital mineira que não tem quase nenhum destaque na história oficial da cidade, tem suas memórias associadas com a história do cemitério e da morte.

Inaugurado em 1942 pelo então prefeito Juscelino Kubitschek, o cemitério ou “campo santo”, como era chamado na época, foi construído no intuito de ampliar os espaços para os mortos da cidade, que já não cabiam no Cemitério do Bonfim, primeira necrópole da capital. O cemitério da saudade foi projetado para ser um cemitério parque, propondo uma mudança radical em relação ao Bonfim, já que contava com arborização especial, flores e os seus túmulos tinham mais o aspecto de monumentos.

Para enterrar os corpos, o prefeito determinou na época que a cidade fosse dividida em duas zonas, cada uma delas pertencendo a cada um dos cemitérios, o do Bonfim e o da Saudade. Assim aqueles que falecessem de um lado da linha seriam enterrados no Bonfim e os que falecessem do outro lado da linha teriam seu túmulo no cemitério da Saudade, com exceção das famílias que tinham o túmulo perpetuado no Bonfim, que deveriam ser enterradas nestes túmulos, independente da zona em que falecessem.

O interessante desse capítulo da história de Belo Horizonte é que o mapa da cidade é dividido a partir da lógica da morte, o que aproxima esse episódio a uma história de caráter quase fantástico, romanesco. Uma outra conclusão que podemos chegar está relacionada ao modo simples como a cidade se organizava, já que ainda tinha uma extensão bem menor da que tem hoje. Isto é, o número de mortos havia excedido a capacidade do Bonfim, então surge a ideia de se construir uma nova necrópole, só que a construção de um novo cemitério exige uma lógica, uma organização que determine em qual cemitério as pessoas deveriam ser enterradas. Para esse problema, nada mais nada menos do que a simples resolução a qual Juscelino havia chegado: traçamos uma linha dividindo a cidade, quem morrer de um lado deve ser enterrado no Bonfim, e quem morrer do outro vai para o Saudade.”

O cemitério da Saudade foi inaugurado com a morte de Domingas Antônia, mulher paupérrima que falece sem assistência médica, mas que é homenageada pelas autoridades, que batizam a alameda central da necrópole com seu nome. “Domingas Antônia é o nome dado à alameda central do cemitério em 1942. Ironicamente, Domingas, mulher negra e pobre, residente na Vila Brasilina, morre aos 48 anos de idade desassistida pelas autoridades da cidade, pois lhe são negados cuidados médicos. Porém, assim que as autoridades têm ciência do fato, dirigirem-se à casa da falecida e tomam todas as providências necessárias para o seu enterro.

ESPETÁCULO > PROCESSO DE CRIAÇÃO > REGISTRO AUDIOVISUAL > MATERIAL DE DIVULGAÇÃO